Por Que a Humanidade Passou a Acreditar em Ficções Coletivas
Nenhum outro animal consegue convencer milhões de desconhecidos a cooperar em torno de algo que não existe fisicamente. Formigas cooperam por instinto genético; chimpanzés cooperam em grupos pequenos que raramente passam de algumas dezenas. Só os humanos constroem impérios, religiões e economias inteiras ao redor de histórias que ninguém jamais tocou. Essa é a tese central que o historiador Yuval Noah Harari desenvolve em Sapiens (2011): o que nos tornou a espécie dominante do planeta não foi a inteligência isolada, mas a capacidade de acreditar coletivamente em ficções.
O que é uma "ficção coletiva"
Harari usa o termo para descrever qualquer coisa que existe porque um grupo suficientemente grande de pessoas concorda, coletivamente, que ela existe — mesmo sem nenhuma base física. Dinheiro é o exemplo mais claro: uma nota de cem reais não tem valor intrínseco algum, apenas papel e tinta. Ela só "vale" alguma coisa porque bilhões de pessoas compartilham a mesma crença sobre seu valor.
O mesmo vale para nações, empresas, religiões e sistemas legais. A Petrobras não existe como objeto físico — existe como uma rede de acordos, contratos e crenças compartilhadas que juridicamente chamamos de "pessoa jurídica". A Argentina não é apenas um pedaço de terra; é uma ideia sustentada por milhões de pessoas que concordam em tratá-la como uma entidade política contínua.
Por que isso foi uma revolução evolutiva
Segundo Harari, essa capacidade surgiu com o que ele chama de "Revolução Cognitiva", há cerca de 70 mil anos: uma mutação na forma como o cérebro humano processava linguagem, permitindo não apenas comunicar informações concretas ("há um leão perto do rio"), mas também comunicar coisas que não existem fisicamente ("o espírito protetor da nossa tribo vive naquela montanha").
Essa habilidade parece, à primeira vista, um desperdício cognitivo — por que gastar energia mental imaginando espíritos e símbolos? A resposta de Harari é que ficções compartilhadas resolveram um problema que nenhuma outra espécie conseguiu resolver: como fazer estranhos confiarem uns nos outros e cooperarem em massa.
Você nunca pode convencer um macaco a lhe dar uma banana prometendo que, depois da morte, ele terá infinitas bananas no céu dos macacos.
As ficções não são mentiras — nem inocentes
É importante entender que Harari não está chamando religião, dinheiro ou nações de "mentiras" no sentido pejorativo. Ele está apontando para uma categoria diferente: coisas que são reais em sentido social e funcional, mesmo sem serem reais em sentido físico. Direitos humanos, por exemplo, não existem na natureza — nenhum microscópio jamais encontrará um "direito" dentro de um corpo humano. Ainda assim, a crença coletiva em direitos humanos mudou profundamente como sociedades inteiras se organizam.
Ao mesmo tempo, o próprio Harari observa que essas ficções, por serem construções, podem ser reescritas — e frequentemente são, por quem detém poder suficiente para redefinir a história que a maioria acredita.
Por que essa ideia incomoda tanta gente
A tese é desconfortável porque relativiza instituições que costumamos tratar como absolutas e eternas — nações, moedas, hierarquias sociais. Mas essa é exatamente a força do argumento: entender que essas estruturas são construções coletivas, não leis da natureza, é o primeiro passo para perceber que elas também podem, coletivamente, ser repensadas — o mesmo impulso que levou Kant, dois séculos antes, a definir o esclarecimento como a coragem de pensar por conta própria. É também um lembrete necessário diante de episódios em que ficções coletivas saem de controle: foi observando de perto esse mecanismo que Hannah Arendt formulou sua tese sobre a banalidade do mal a partir do julgamento de Eichmann, e que Umberto Eco tentou mapear os traços recorrentes que permitem reconhecer o fascismo em diferentes épocas.
Conteúdo produzido e revisado pela redação do Filosofando.