Como Reconhecer o Fascismo: As Características Eternas Segundo Umberto Eco
Em 1995, cinquenta anos após a libertação dos campos de concentração, o escritor e semiólogo italiano Umberto Eco foi convidado a falar sobre fascismo em um simpósio na Universidade Columbia. Do encontro nasceu o ensaio "Ur-Fascismo" (publicado no Brasil como parte da coletânea de textos sobre o tema), no qual Eco, que viveu a infância sob o regime de Mussolini, tentou responder a uma pergunta difícil: existe algo em comum entre os fascismos históricos e movimentos posteriores que se lhes assemelham, mesmo quando surgem em contextos muito diferentes?
Um ensaio pessoal, não uma definição científica
É importante começar pela ressalva que o próprio Eco fazia questão de deixar clara: seu texto não pretendia ser um tratado de ciência política nem uma definição consensual e definitiva de fascismo. Tratava-se de um ensaio de caráter mais pessoal e literário, no qual Eco listava catorze características que, em sua leitura, formavam uma espécie de constelação recorrente — o que ele chamou de "fascismo eterno" ou "Ur-Fascismo" — sem que todas precisassem estar presentes simultaneamente em cada caso histórico. A lista é uma interpretação de autor, não um consenso da historiografia ou da ciência política, e deve ser lida como tal.
O culto à tradição e a rejeição do modernismo crítico
Entre os traços listados por Eco está o culto a uma tradição ancestral tida como fonte única de verdade, combinado à rejeição do pensamento crítico moderno. Para ele, o fascismo histórico se apresentava como reação contra o racionalismo iluminista, buscando legitimidade em passados idealizados e sintéticos, muitas vezes construídos por justaposição de elementos incompatíveis entre si.
Medo da diferença e apelo às classes frustradas
Outros elementos apontados por Eco incluem o medo da diferença — que alimenta o nacionalismo excludente e discursos contra minorias — e o apelo a uma classe média frustrada, que se sente ameaçada por pressões econômicas vindas de baixo e por grupos que considera privilegiados. Eco também destacava a obsessão com conspirações, muitas vezes atribuídas a inimigos simultaneamente poderosos e frágeis, uma combinação retórica que serve tanto para justificar o medo quanto para prometer vitória.
Linguagem, virilidade e o líder que fala pelo povo
O ensaio também trata do empobrecimento deliberado da linguagem como instrumento de controle do pensamento — o que Eco chamava de "novilíngua", em referência direta a George Orwell —, do culto à ação pela ação em detrimento da reflexão, do machismo como valorização de uma virilidade guerreira, e da ideia de um líder que se apresenta como intérprete direto da vontade popular, dispensando mediações institucionais. Para Eco, essa figura de liderança carismática substitui o debate plural por uma suposta vontade única do povo, da qual o líder seria porta-voz exclusivo.
Um alerta, não um rótulo pronto
É fundamental notar que Eco escreveu o texto como advertência histórica, não como ferramenta para classificar adversários políticos contemporâneos de forma automática. A aplicação apressada da lista para rotular movimentos ou figuras políticas atuais é, inclusive, uma simplificação que boa parte dos cientistas políticos evita, já que características isoladas — nacionalismo, populismo, retórica beligerante — também aparecem em contextos que não correspondem historicamente ao fascismo enquanto fenômeno de entreguerras europeu. O próprio conceito de fascismo é objeto de debate acadêmico extenso, com autores como Robert Paxton e Roger Griffin propondo definições distintas e mais rigorosas do ponto de vista historiográfico.
Reconhecer os sinais de um perigo antigo não é o mesmo que encontrá-lo pronto em qualquer adversário do presente.
O valor duradouro do alerta de Eco
O legado do ensaio de Eco está menos numa checklist definitiva e mais num convite à vigilância intelectual: a atenção aos mecanismos retóricos e emocionais que historicamente prepararam terreno para regimes autoritários — os mesmos mecanismos que Hannah Arendt viu operar, décadas depois, na figura burocrática e medíocre que ela descreveu ao analisar a banalidade do mal no julgamento de Eichmann. Usado com o rigor que o próprio autor recomendava — como ponto de partida para reflexão, não como veredito automático, e atento a por que a humanidade adere com tanta facilidade a ficções coletivas —, o texto continua sendo referência valiosa para pensar como sociedades democráticas podem reconhecer, em si mesmas, tendências que valem a pena examinar com cuidado, sem nunca abandonar o exercício de pensar por conta própria que Kant descreveu como a essência do esclarecimento.
Conteúdo produzido e revisado pela redação do Filosofando.