O Problema do Mal em Santo Agostinho: Como Conciliar um Deus Bom com o Sofrimento
Se Deus é onipotente e infinitamente bom, por que o mal existe? A pergunta é tão antiga quanto a própria teologia, mas foi Santo Agostinho, bispo de Hipona no século IV-V, quem lhe deu uma das respostas mais influentes de toda a tradição cristã ocidental — uma resposta forjada, não por acaso, a partir de sua própria e conturbada trajetória pessoal antes da conversão.
Uma pergunta vivida antes de ser pensada
Antes de se tornar um dos maiores teólogos cristãos da história, Agostinho passou anos como adepto do maniqueísmo, doutrina que explicava o mal através de um princípio cósmico do mal, literalmente em guerra contra um princípio do bem — dois deuses, ou forças, em conflito eterno. Foi apenas depois de sua conversão ao cristianismo, narrada em detalhe em suas Confissões, que Agostinho passou a rejeitar essa solução dualista, considerando-a incompatível com a ideia de um Deus único, absolutamente soberano sobre toda a criação.
O problema, então, tornou-se ainda mais agudo: se não existe um segundo poder cósmico responsável pelo mal, e se tudo o que existe foi criado por um Deus perfeitamente bom, de onde vem o mal?
O mal como ausência, não como substância
A resposta agostiniana, que se tornaria a posição dominante na teologia cristã por mais de um milênio, é conhecida como a doutrina da privatio boni — a privação do bem. Para Agostinho, o mal não é uma substância positiva criada por Deus, mas a ausência, corrupção ou privação de um bem que deveria estar presente. Assim como a cegueira não é uma "coisa" que existe por si mesma, mas a ausência de visão num olho que deveria enxergar, o mal moral seria a ausência de retidão numa vontade que deveria estar orientada para o bem.
Essa distinção permitia a Agostinho afirmar, simultaneamente, que tudo o que Deus criou é bom (já que Deus não criaria o mal diretamente) e que o mal é real em sua experiência — sem precisar recorrer a um segundo princípio cósmico maligno.
O mal não tem natureza; a perda mesma do bem recebeu o nome de mal.
O livre-arbítrio como origem do mal moral
Mas de onde vem, então, essa privação do bem? A resposta de Agostinho aponta para o livre-arbítrio. Deus criou seres racionais — anjos e seres humanos — dotados de liberdade genuína, condição necessária para que o amor e a obediência a Deus tivessem valor moral real, e não fossem apenas comportamento programado. Essa mesma liberdade, no entanto, tornou possível que a vontade se afastasse do bem supremo e se voltasse para bens inferiores de forma desordenada — origem, para Agostinho, tanto do pecado original quanto de todo mal moral subsequente na história humana.
Já o mal físico — doenças, desastres naturais, sofrimento não causado diretamente por escolhas morais — Agostinho tende a relacionar, de forma mais ampla, à condição de corrupção geral introduzida no mundo pela queda original, ou o interpreta como parte de uma ordem cósmica cuja bondade total escaparia à nossa compreensão limitada.
Críticas e legado
A solução agostiniana não convenceu a todos — filósofos posteriores apontaram que ela não resolve completamente por que Deus permitiria, de início, que a liberdade fosse usada para gerar tanto sofrimento, especialmente o sofrimento de inocentes que não escolheram livremente nada. Ainda assim, a distinção entre mal como privação (e não substância) e a ênfase no livre-arbítrio como origem do mal moral se tornaram ferramentas conceituais centrais, repetidas e refinadas por praticamente todos os grandes teólogos cristãos que vieram depois — a começar por Tomás de Aquino, que retomaria séculos depois a pergunta sobre se a existência de Deus pode ser provada pela razão. E o próprio livre-arbítrio que Agostinho colocou no centro do problema continua sendo investigado hoje sob uma luz bem diferente, a de o que a filosofia e a neurociência contemporâneas têm a dizer sobre se essa liberdade realmente existe.
Conteúdo produzido e revisado pela redação do Filosofando.