A Teoria da Internet Morta: Quanto da Web Já É Feita por Robôs?
Por volta de 2021, começou a circular em fóruns on-line uma ideia inquietante: a de que a internet teria “morrido” anos antes e que a maior parte do que vemos hoje seria produzida por robôs, não por pessoas. A chamada teoria da internet morta nasceu com cara de teoria conspiratória, cheia de suposições sobre controle secreto e manipulação em massa. Mas, com a popularização da inteligência artificial generativa, parte do que ela descrevia deixou de soar tão absurdo.
A origem da teoria da internet morta
Em sua versão original, a teoria afirmava que a web autêntica, feita de blogs pessoais, fóruns e conversas espontâneas, teria sido substituída por conteúdo artificial produzido em escala, com o objetivo de moldar opiniões. Essa versão conspiratória não tem comprovação: supõe uma coordenação central, planejada e oculta, para a qual não há evidência.
No entanto, a teoria tocou em um sentimento difuso compartilhado por muitos usuários: a sensação de que a internet ficou mais repetitiva, mais comercial e menos humana. Separar o exagero do fenômeno real é o primeiro passo para discutir o tema com seriedade.
O que há de real
Alguns fatos são amplamente reconhecidos. Contas automatizadas existem há muito tempo e são usadas para inflar seguidores, simular popularidade ou espalhar mensagens. Fazendas de cliques, operações em que muitos aparelhos ou pessoas interagem artificialmente com conteúdos, também são conhecidas. E, mais recentemente, ferramentas de IA tornaram barato produzir textos, imagens e vídeos em grande quantidade.
Daí surgiu o termo em inglês AI slop, algo como “lavagem de IA”: conteúdo genérico, gerado automaticamente, muitas vezes de baixa qualidade, criado para atrair cliques ou anúncios. Sites inteiros de textos sem autoria humana clara, imagens estranhas que viralizam e comentários automáticos respondendo a outros comentários automáticos dão a impressão de uma internet morta, ainda que exista muita atividade humana genuína circulando ao lado disso.
Quanto exatamente da web é produzido por robôs é uma pergunta difícil, com estimativas que variam conforme a metodologia e o que se considera bot. Por isso, o mais honesto é falar em tendência: a proporção de conteúdo automatizado cresceu e ficou mais difícil de identificar.
Quando já não sabemos se do outro lado há alguém, a desconfiança passa a ser o preço de cada conversa.
O impacto na confiança e na cultura
A consequência mais séria é a erosão da confiança. Se qualquer avaliação de produto, comentário ou perfil pode ser falso, o usuário precisa duvidar de tudo. Isso afeta o comércio, as relações sociais e o debate público.
O jornalismo também sente o efeito. Conteúdos automáticos competem por atenção com reportagens apuradas e podem copiar ou distorcer informações sem verificação. Para a cultura, há outro risco: se modelos de IA forem treinados cada vez mais com material produzido por outras IAs, especialistas alertam para a possibilidade de empobrecimento e repetição de padrões.
A internet morta tem volta?
Há respostas sendo discutidas: selos de autenticidade, marcas d’água em conteúdo gerado por IA, verificação de perfis, comunidades menores e moderadas, e uma valorização renovada de fontes com autoria clara. Nenhuma delas é perfeita, e algumas levantam dilemas sobre privacidade e anonimato.
A teoria da internet morta, mesmo exagerada, funciona como sintoma. Ela expressa a saudade de uma web em que era possível saber quem estava falando. Talvez a pergunta mais útil não seja se a internet morreu, mas como manter vivos os espaços onde pessoas reais ainda conversam entre si.
Para aprofundar esses temas, vale explorar também: Deepfakes e Desinformação: Os Novos Desafios para a Confiança Pública, Como Funciona a Inteligência Artificial Generativa, na Prática e Vivemos numa Simulação? O Argumento Filosófico Que a Ciência Leva a Sério.
Conteúdo produzido e revisado pela redação do Filosofando.