Sharenting: O Que a Psicologia Diz Sobre Expor os Filhos nas Redes
A foto do primeiro dia de aula, o vídeo do tombo engraçado, a birra no supermercado registrada para os amigos rirem. Compartilhar momentos dos filhos nas redes sociais virou parte da experiência de criar uma criança. O hábito ganhou nome: sharenting, junção das palavras inglesas share (compartilhar) e parenting (criação dos filhos). A psicologia e o direito vêm olhando para esse fenômeno com atenção, não para condenar pais, mas para pensar como proteger quem ainda não pode opinar sobre a própria imagem.
Por que os pais postam
As motivações costumam ser legítimas. Há o orgulho natural diante das conquistas dos filhos, o desejo de manter avós e parentes distantes por perto, a busca por uma rede de apoio para dividir dúvidas e cansaços da maternidade e da paternidade. Para muitos, postar é uma forma de registrar memórias. Em outra ponta, existe o sharenting profissionalizado: perfis infantis que acumulam seguidores, fecham parcerias com marcas e transformam a rotina da criança em conteúdo monetizado. Nesse caso, a fronteira entre registro familiar e trabalho fica bem mais difícil de enxergar.
Os riscos do sharenting
O primeiro é a pegada digital permanente. Uma imagem publicada pode ser copiada, arquivada e reaparecer anos depois, fora do contexto original. Aquilo que era fofo aos três anos pode ser constrangedor aos quinze. Há também a exposição de informações sensíveis, como nome da escola, bairro, rotina e aparência, que podem ser usadas por pessoas mal-intencionadas.
Um risco mais recente é o uso indevido de imagens, inclusive por ferramentas de inteligência artificial capazes de manipular fotos e vídeos. Fotografias inocentes podem ser alteradas ou reaproveitadas em contextos abusivos, algo que os pais dificilmente conseguem controlar depois que o conteúdo circula. E existe o tema da adultização: quando crianças são incentivadas a posar, dançar ou se comportar como adultos para gerar engajamento, sua infância passa a ser moldada pela lógica dos algoritmos.
Identidade, consentimento e o olhar da psicologia sobre o sharenting
A infância e a adolescência são períodos de construção da identidade. A criança vai descobrindo quem é, experimentando papéis, errando e mudando. Quando essa trajetória é narrada publicamente por outra pessoa, ela perde parte do direito de contar a própria história. Muitos jovens que cresceram sob o sharenting relatam desconforto ao descobrir que sua vida foi exposta sem que tivessem sido consultados.
A criança de hoje é o adulto que, amanhã, vai encontrar sua infância arquivada na internet.
O consentimento é central. Bebês não podem consentir, e crianças pequenas não compreendem o alcance de uma publicação. À medida que crescem, porém, é possível e saudável perguntar: posso postar essa foto? Esse gesto simples ensina sobre limites, privacidade e respeito ao próprio corpo.
O marco brasileiro e os cuidados práticos
No Brasil, o chamado ECA Digital, a Lei 15.211, de 2025, surgiu como marco de proteção de crianças e adolescentes no ambiente online, somando-se ao Estatuto da Criança e do Adolescente e à legislação de proteção de dados. A existência dessas normas mostra que o sharenting deixou de ser apenas escolha privada e passou a ser preocupação coletiva.
No dia a dia, algumas atitudes ajudam a praticar um sharenting mais cuidadoso: preferir perfis privados e listas restritas de contatos, evitar fotos com uniforme escolar, localização ou nudez parcial, não expor momentos de choro, doença ou constrangimento, pensar se a criança aprovaria aquela imagem no futuro e, quando ela tiver idade, pedir sua opinião. Também vale desconfiar de propostas comerciais que transformem a rotina dos filhos em trabalho.
Ninguém precisa abandonar as redes para ser um bom pai ou uma boa mãe. A questão é encontrar equilíbrio entre o desejo de compartilhar e o direito da criança de crescer com alguma privacidade. Pensar no sharenting é, no fundo, pensar no tipo de memória que queremos deixar para quem ainda está aprendendo a ser alguém.
Para aprofundar esses temas, vale explorar também: ECA Digital: O Que Muda na Proteção de Crianças e Adolescentes Online, O Que É a LGPD e Quais Direitos Ela Garante ao Cidadão e Redes Sociais e Comparação Social: Por Que Rolar o Feed Faz Você se Sentir Pior.
Conteúdo produzido e revisado pela redação do Filosofando.