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Rerum Novarum: A Encíclica de 1891 Que Inspirou o Nome do Papa Leão XIV

Administrador 2 de novembro de 2026 1 visualizações 4 min de leitura
Operários de uma fábrica do século XIX e uma figura papal de branco vista de costas, com fumaça industrial

Quando o cardeal Robert Prevost foi eleito papa em maio de 2025 e escolheu o nome Leão XIV, muita gente voltou os olhos para um documento de mais de um século: a encíclica Rerum Novarum, publicada por Leão XIII em 15 de maio de 1891. O novo pontífice explicou que a escolha era uma referência direta ao antecessor, que enfrentou os desafios da Revolução Industrial, enquanto a Igreja de hoje se depara com outra transformação profunda, a da inteligência artificial.

O contexto: a questão operária

No fim do século XIX, a Europa vivia os efeitos da industrialização acelerada. Fábricas concentravam multidões de trabalhadores em cidades que cresciam sem planejamento, com jornadas longas, salários baixos, trabalho infantil e pouca proteção diante de acidentes e doenças. Esse conjunto de problemas ficou conhecido como "questão operária", e diferentes correntes de pensamento disputavam respostas para ele. De um lado, o liberalismo econômico defendia a mínima interferência no mercado; de outro, movimentos socialistas propunham a abolição da propriedade privada dos meios de produção.

O título latino, que pode ser traduzido como "das coisas novas", sinaliza justamente a intenção de tratar uma realidade inédita. A Rerum Novarum não foi o primeiro texto católico sobre temas sociais, mas foi o primeiro em que um papa dedicou uma encíclica inteira ao mundo do trabalho moderno.

O que a Rerum Novarum defende

O documento parte da dignidade da pessoa humana e, por consequência, da dignidade do trabalho. O trabalhador não pode ser tratado como simples mercadoria nem como mero instrumento de lucro. Daí decorre a ideia de salário justo: a remuneração deve permitir ao operário sustentar a si e à família de forma digna, e um acordo firmado sob a pressão da necessidade não se torna justo apenas por ter sido aceito.

A encíclica também reconhece o direito de associação. Trabalhadores podem se organizar em entidades próprias para defender seus interesses, o que, no contexto da época, representou um respaldo importante às associações operárias e ao sindicalismo de inspiração cristã. Ao Estado cabe proteger os mais vulneráveis e promover o bem comum, sem absorver a família nem sufocar as iniciativas da sociedade.

Ao mesmo tempo, Leão XIII defende a propriedade privada como direito natural, mas a vincula a uma função social: os bens devem servir também às necessidades dos outros. Essa combinação explica por que a Rerum Novarum costuma ser lida como uma crítica dupla, tanto ao liberalismo sem limites quanto ao socialismo coletivista.

Nem o trabalho é mercadoria, nem a propriedade é absoluta: entre os dois extremos, a dignidade da pessoa se torna a medida da economia.

O nascimento da Doutrina Social da Igreja

A Rerum Novarum é considerada o marco inicial do que se convencionou chamar de Doutrina Social da Igreja, um conjunto de ensinamentos sobre economia, política e vida em sociedade. Em 1931, quarenta anos depois, Pio XI publicou a Quadragesimo Anno, que atualizou a reflexão diante da crise econômica da época e formulou de modo explícito o princípio da subsidiariedade. Em 1991, no centenário, João Paulo II lançou a Centesimus Annus, escrita após o fim da Guerra Fria e voltada a um mundo que se reorganizava.

Essa tradição de releitura mostra que a encíclica funciona menos como manual fechado e mais como ponto de partida.

Da Rerum Novarum ao algoritmo

A referência feita por Leão XIV aproxima dois momentos separados por mais de cem anos. Se no século XIX a preocupação era com a máquina a vapor e a linha de produção, hoje as perguntas envolvem automação, algoritmos e sistemas capazes de executar tarefas antes exclusivas de seres humanos. Para muitos estudiosos, a Rerum Novarum oferece um vocabulário útil para esse debate: dignidade do trabalho, justiça na distribuição dos ganhos, proteção dos mais frágeis e responsabilidade compartilhada entre os diversos atores sociais.

Há também quem lembre que as respostas concretas de 1891 pertencem ao seu tempo e que transpô-las diretamente para a economia digital exige cuidado. É nesse equilíbrio entre princípio permanente e circunstância histórica que a leitura da Rerum Novarum continua a provocar discussões, dentro e fora da Igreja, sobre que tipo de progresso merece esse nome.

Para aprofundar esses temas, vale explorar também: Revolução Industrial: Como Mudou Para Sempre o Trabalho Humano, Mais-Valia: O Conceito Central de Marx Para Entender a Exploração do Trabalho e Fé e Razão em Tomás de Aquino: Pode-se Provar a Existência de Deus?.

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Conteúdo produzido e revisado pela redação do Filosofando.

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