O Que É Populismo e Por Que Ele Está Crescendo no Mundo Todo
Poucos termos são tão usados e tão pouco definidos com precisão no debate público quanto "populismo". É empregado como acusação, como autodescrição orgulhosa e como categoria analítica da ciência política, muitas vezes nas mesmas frases, com significados diferentes. Entender o que os pesquisadores realmente querem dizer quando falam em populismo — e por que o fenômeno tem crescido em democracias tão distintas entre si — exige ir além do uso corriqueiro da palavra.
Uma "fina ideologia" com dois polos
Uma das definições mais influentes na ciência política contemporânea, proposta pelo cientista político Cas Mudde, descreve o populismo como uma "ideologia de fina espessura" (thin-centered ideology): um conjunto de ideias mais restrito que ideologias completas como o liberalismo ou o socialismo, que divide a sociedade em dois campos homogêneos e antagônicos — "o povo puro" de um lado e "a elite corrupta" de outro — e defende que a política deveria ser expressão direta da vontade geral do povo. Por ser "fina", essa estrutura pode se combinar com ideologias muito diferentes, o que explica por que existem populismos de esquerda e de direita, ambos usando essa mesma gramática de povo contra elite, embora com conteúdos, alvos e propostas econômicas frequentemente opostos.
Populismo de direita e de esquerda: gramática comum, conteúdos distintos
O populismo de direita tende a somar à divisão povo-elite uma dimensão identitária, na qual "o povo" é definido também em oposição a grupos percebidos como estrangeiros ou culturalmente distintos. O populismo de esquerda, por sua vez, costuma articular a divisão em termos primariamente econômicos, opondo trabalhadores e classes populares a elites financeiras ou corporativas. Cientistas políticos como Ernesto Laclau e Chantal Mouffe, de tradição mais próxima à esquerda, chegaram a defender o populismo não como patologia democrática, mas como forma legítima de mobilização capaz de dar voz a demandas sociais represadas pelas instituições tradicionais — uma leitura que contrasta com a de autores mais céticos, que veem no populismo, seja de que espectro for, um risco à pluralidade e aos mecanismos de controle institucional típicos da democracia liberal.
Desigualdade e desconfiança institucional
Entre os fatores estruturais associados ao crescimento do populismo em diferentes partes do mundo, pesquisadores frequentemente citam o aumento da desigualdade econômica em décadas recentes, a percepção de estagnação ou retrocesso de mobilidade social em segmentos amplos da população, e a erosão da confiança em instituições tradicionais — partidos, parlamentos, imprensa, organismos internacionais — vistas por parcelas crescentes do eleitorado como distantes e capturadas por interesses particulares.
A transformação do ambiente midiático
Outro fator amplamente discutido é a mudança no ecossistema de comunicação. A fragmentação da mídia tradicional e a ascensão das redes sociais reduziram o custo de acesso direto entre líderes políticos e eleitores, contornando a mediação de jornalistas e instituições partidárias que historicamente filtravam o discurso político. Essa comunicação mais direta favorece estilos de liderança que se apresentam como porta-vozes imediatos da vontade popular — um traço central da gramática populista.
Um fenômeno global, não local
É importante notar que o crescimento de partidos e lideranças com características populistas tem sido documentado por institutos de pesquisa em democracias muito diferentes — na Europa, nas Américas e em outras regiões —, o que sugere que fatores estruturais compartilhados, e não apenas circunstâncias nacionais específicas, ajudam a explicar o fenômeno.
O populismo prospera sempre que parte significativa da população deixa de se sentir representada pelos canais tradicionais da política.
Um conceito para entender, não para rotular
Tratar o populismo como categoria analítica, e não apenas como xingamento político, permite compreender melhor por que ele emerge com tanta força em momentos de crise de representação, muitas vezes alimentado pelo mesmo ambiente que explica por que discordar virou quase impossível nas democracias contemporâneas. Isso não significa neutralidade quanto aos riscos que diferentes formas de populismo podem representar para os elementos que definem uma democracia liberal ou para a lógica que leva as democracias a dividir o governo em três poderes — um debate legítimo e ainda em aberto entre especialistas —, mas exige reconhecer que o fenômeno responde a causas estruturais reais, e não apenas à ação isolada de líderes carismáticos.
Conteúdo produzido e revisado pela redação do Filosofando.